terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

RETORNANDO DA PONTA ESCURA


Amanheceu com o céu totalmente encoberto e sem vento. A areia da praia estava úmida  e a água do rio Guaíba estava sem ondas. O silêncio só foi quebrado por um socó grande que voou quando me aproximei da beira da água. Ele estava bem próximo do acampamento.

Havia chovido no começo da noite e tive que fazer meu lanche dentro da barraca. Durante a noite choveu em intervalos mas, parecia que tinha passado agora, embora com todas aquelas nuvens dessem um ar de instabilidade.

Fiquei caminhando sem pressa e fazendo algumas fotos. Lembrei da mudança do horário de verão que terminou meia noite deste sábado. Com isso ganhamos uma hora e foi quando me dei conta que, no dia anterior, estaríamos uma hora adiante.  Chamei Maciel para providenciarmos o café e a partida.
 Conversamos sobre nosso plano de retorno que seria indo em linha reta para o pontal do Salgado pois,se houvesse vento seria fraco e pela manhã vindo de E ou SE e favoráveis para nós. 
Teríamos tempo de sobra para chegarmos na revessa do pontal do Salgado caso o vento aumentasse mas, isso deveria ser  na parte da tarde.

Acampamento ao amanhecer.





Começando clarear.






Ouvimos um barulho estranho ao longe e parecia que era algo vindo na nossa direção. Quando chegou, eram ondas provocadas por navio que passou no canal.




Maciel que pediu essa foto: - tira uma minha escovando os dentes...




Já embarcado e pronto para o retorno e olhando na direção do pontal que deixamos para outra vez.


Maciel nos últimos preparativos na saída o acampamento.



Saímos por volta de 8h30min o que corresponderia nove e meia no dia anterior. Passamos no acampamento dos pescadores e troquei informações sobre as condições do vento. Na opinião deles, seria igual ao dia anterior. Isso me tranqüilizou mais ainda pois, a água estava parada como viemos de Barra do Ribeiro. Tudo indicava que a previsão estava dando certo.
Assim, saímos com a proa apontada para a pontinha de mato na linha do horizonte.
À  medida que nos afastávamos da costa, as ondinhas que batiam pelas alhetas de boreste (ao lado direito perto da popa) e começavam a crescer. Dava para perceber que estávamos nos aproximando do alinhamento das ondas com o pontal da ponta Escura. Mas, eram ondas que pouco perturbavam a concentração da remada e eu achava que não deveriam aumentar muito mais. E fomos tentando manter a direção  estabelecida.  Mais adiante as ondas já estavam forçando o barco para bombordo (lado esquerdo) e, com isso, nos forçando a alterar o rumo  para não ter arrasto.
Numa remada com ondas pelas bochechas (os lados próximos da proa) o barco sobe e desce cortando a crista da onda e fica melhor manter o rumo. Quando a onda vem pelas alhetas, ela dá uma guinada na proa e torna a navegada desconfortável.
Percebi que Maciel estava muito preocupado com cara de quem não queria remar  nas ondas e eu, passei a me sentir culpado. Ele sugeriu que virássemos para a costa da península mas, a minha preocupação era o trecho pela costa do Salgado que seria com aquelas ondas de través (pelo lado).
Aquelas condições não estavam previstas para manhã pois, o vento L costuma entrar à tarde e era como estava nos sites de meteorologia. 
Eu levava em conta que já estávamos no meio do conflito e só mantendo a remada e o barco alinhado nas ondas e chegaríamos bem. Confiava que não aumentaria mais do que estava, como dissera o pescador.  O céu havia clareado e não haviam muitas nuvens, nem ameaça de temporais, logo, a situação deveria se manter assim.
Havia saído com a câmera ao pescoço e resolvi, em meio daquelas ondas, gravar um clipe. Liguei e acionei o obturados com a tensão voltada para as ondas. Remei vários minutos e desliguei a câmera.
E assim nos mantivemos levados pelas ondas e, à medida que nos aproximávamos da costa, a tensão foi diminuindo e a sensação de segurança tomou conta. Via que Maciel já estava mais a vontade mas, tinha no olhar  uma expressão de quem não gostou.  Lá no meio desse trecho havia me perguntado se eu já tinha passado uma situação dessas. Eu respondi que sim e, na verdade, foi o que me manteve acreditando que sairíamos bem dessa travessia porque comparava com o retorno da ilha do Barba Negra em companhia do Esch que foi em condições piores nas proximidades da ilha do Junco. Lá fora, na lagoa, as ondas eram maiores mas vinham quase pela proa  e, na ilha do Junco, eram turbulentas. Lá, elas vêm em duas direções depois que passam pela ilha.
Entrei na rebentação e fui direto nas areias da praia. Liguei a câmera e gravei o clipe com Maciel chegando. Quis fazer uma entrevista mais longa mas, pareceu  que ele não conseguia falar...


Relaxando.

Saímos daquela praia com a segurança de quem conhece as lagoas do litoral. Maciel garantiu que agora seria fácil e era só ir pela costa do Salgado. Nos afastamos um pouco da costa e fomos remando com as ondas batendo ao largo mas sem problemas.Como se diz: "navegando na vaga" até contornar o pontal do Salgado e entrar na água paradinha.
Fomos remando pela costa, aportamos numa praia mais acima para um descanso e preparar o almoço.



O que parece? um filhote? um pedaço de raiz?

Parada para o almoço.




Partimos novamente para o último trecho até Barra do Ribeiro. Fomos em linha reta na direção da praia Recanto das Mulatas, de onde havíamos saído no dia anterior.
A água que na costa estava lisa, agora já sofria  o efeito do vento o que era de se esperar porque naquele ponto ficamos novamente no alinhamento da ondas trazidas de SE. Antes que as coisas complicassem mais, resolvi virar para a costa Oeste e entrar no trecho menos agitado. Logo alcancei a revessa de uma ilha e aguardei Maciel que havia feito o mesmo.
Seguimos  pela margem mais em trecho, depois, voltei para o meio das ondas que vinham pela popa  até a chegada. Maciel seguiu pela costa e no final veio pelas ondas até chegar na praia.


Veleiro passando a motor na direção de Porto Alegre.


Nova partida.


A vela não subiu e o veleiro virou 180º.

A água encrespando.

Maciel mudando o rumo.

Com zoon...

...sem zoon.

Vegetação do remanso.


Percurso estimado

O que posso dizer ainda dessa jornada é que ela soma  experiências para outras situações tanto na água como fora dela. Talvez tivesse retornado no meio do caminho e fôssemos parar sobre as pedras submersas da restinga ou, ficado acampados esperando o vento parar, mas, foram  as experiências já passadas que nos deram as condições de vencer essas dificuldades.
O que mais lamentei foi quando procurei o clipe das ondas e não achei. De certo, naquela preocupação em manter atenção na água não havia ligado a câmera. Mas, lamento por quem visitar estes relatos e fotos porque não poderão assistí-lo. Para nós, todas aquelas cenas estão registradas nas nossas memórias.



Caiaque Artic.....................................Leonardo Maciel

Caiaque Cabo Horn.............................Germano Greis



*****


3 comentários:

Leonardo Esch disse...

Que beleza de remada, hein? Ainda mais com umas ondinhas! Na filmagem dá para ter uma ideia. Era vento Leste? Seria legal colocar uma imagem do Google Earth com o percurso. Abração!

Germano José Greis disse...

Valeu Esch. Agora atualizei a postagem acrescentando os textos e também um mapinha do local, de forma estimada do percurso pois, não tínhamos GPS. Talvez a curva fecharia um pouquinho mais e apareceriam pequenos desvios com rastreamento por satélite.Abraço.

Grupo Osório de Canoagem disse...

Bela remada, parabens aos remadores, pelo visto o Maciel nao gostou muito das ondas, mas se tudo fosse calmaria ficaria muito monótono, assim é a vida, quando temos um obstáculosa emfrentar temos de nos superar para emfrentar, e depois do abstáculo vencido saimos bem mais fortes e prontos para outra, parabens mais uma vez e belícimas fotos Germano.

Marcio

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